sábado, 29 de agosto de 2009

A «Consciência», segundo António Damásio



     
Embora eu não veja a consciência como o apogeu da evolução biológica, encaro-a como um ponto de viragem na longa história da vida. Mesmo quando recorremos à simples e clássica definição de consciência do dicionário — a percepção pelo organismo do seu próprio ser e do seu ambiente — conseguimos facilmente imaginar como a consciência deve ter permitido à evolução humana uma nova ordem de criações que não seriam possíveis sem ela: a consciência moral, a religião, a organização social e política, as artes, as ciências e a tecnologia. A consciência é a função biológica crítica que nos permite conhecer a tristeza ou a alegria, sentir a dor ou o prazer, sentir a vergonha ou o orgulho, chorar a morte ou o amor que se perdeu. Tanto o pathos como o desejo são produtos da consciência. Sem ela, nenhum desses estados pessoais poderia ser conhecido por cada um de nós. Não culpem a Eva pelo facto de conhecer, culpem a consciência mas agradeçam-lhe também.  
Estou a escrever estas palavras em Estocolmo, enquanto observo pela janela um velho frágil que se dirige a um barco que está prestes a partir. O tempo é escasso, mas a marcha é vagarosa e a cada passo os tornozelos claudicam; o cabelo é branco; o casaco está gasto. Chove sem parar e o vento obriga-o a dobrar-se ligeiramente, como um arbusto solitário em campo aberto. Finalmente consegue chegar ao barco. Sobe com dificuldade o degrau alto que dá acesso à prancha de embarque e inicia a descida para o convés, receoso de ganhar demasiada velocidade na rampa, olhando com rapidez para a esquerda e para a direita, enquanto o seu corpo inteiro parece perguntar: «Estou no sítio certo? E agora, para onde vou?» Nessa altura, os dois marinheiros que se encontram no convés ajudam-no afirmar o último passo, conduzem-no para a cabina com gestos amigáveis e ele está, finalmente, em segurança. A minha preocupação acaba. O barco parte.  
Deixe agora, leitor, que a sua mente vagueie. Pense o impensável e considere que, sem consciência, o nosso homem não poderia ter conhecido o seu desconforto e talvez humilhação. Sem consciência, os dois homens no convés não teriam reagido com a mesma simpatia. Sem consciência, eu não me teria preocupado e nunca teria pensado que um dia poderei estar nas mesmas circunstâncias, caminhando com a mesma dolorosa hesitação e o mesmo desconforto. A consciência amplifica o impacto destes sentimentos na mente dos personagens desta cena.  
A consciência é, com efeito, a chave para uma vida examinada, para o melhor e para o pior; é a certidão que nos permite tudo conhecer sobre a fome, a sede, o sexo, as lágrimas, o riso, os murros e os pontapés, o fluxo de imagens a que chamamos pensamento, os sentimentos, as palavras, as histórias, as crenças, a música e a poesia, a felicidade e o êxtase. A consciência, no seu plano mais simples e básico, permite-nos reconhecer o impulso irresistível para conservar a vida e desenvolver um interesse por si mesmo. A consciência, no seu plano mais complexo e elaborado, ajuda-nos a desenvolver um interesse por outros si mesmos e a cultivar a arte de viver.
  
In O Sentimento de Si. O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, António Damásio,
Mem Martins, Publicações Europa-América, 2000 (1ª ed.), pp. 23-24. Título Original: The Feeling of What Happens.Versão portuguesa do original americano revista pelo autor e baseada em parte, numa tradução de M.F.M.
  

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Da Consciência Nuclear à Consciência Alargada





  
  
[…] a consciência não é monolítica, pelo menos nos seres humanos: pode ser dividida em espécies simples e complexas e a evidência neurológica torna esta divisão transparente. A espécie mais simples, a que chamo consciência nuclear, fornece ao organismo um sentido do si num momento — agora — e num lugar — aqui. O âmbito da consciência nuclear é o aqui e agora. A consciência nuclear não ilumina o futuro, e o único passado que nos permite vagamente vislumbrar é o que ocorreu no instante exactamente anterior. Não corresponde a nenhum algures, não corresponde a nenhum antes, nem corresponde a nenhum depois. Por outro lado, a espécie mais complexa de consciência, a que chamo consciência alargada e da qual existem vários níveis e graus, fornece ao organismo um elaborado sentido de si — uma identidade e uma pessoa, o leitor ou eu — e coloca essa pessoa num determinado ponto da sua história individual, amplamente informada acerca do passado que já viveu e do futuro que antecipa, e agudamente alerta para o mundo que a rodeia.
  
Em resumo, a consciência nuclear é um fenómeno biológico simples; possui um único nível de organização; é estável ao longo da vida do organismo; não é exclusivamente humana; e não está dependente da memória convencional, da memória de trabalho, do raciocínio ou da linguagem. Por outro lado, a consciência alargada é um fenómeno biológico complexo, possui vários níveis de organização, e evolui ao longo de toda a vida do organismo. Embora acredite que a consciência alargada também se encontra presente de forma elementar em alguns seres não humanos, ela só atinge o seu auge nos seres humanos. A consciência alargada depende da memória convencional e da memória de trabalho. Quando atinge o seu apogeu humano, é largamente reforçada pela linguagem.
  
O super-sentido da consciência nuclear é o primeiro passo para a luz do conhecimento e não ilumina um ser na sua totalidade. Por outro lado, o super-sentido da consciência alargada traz finalmente para a luz o edifício inteiro do ser. Na consciência alargada, tanto o passado como o futuro antecipado são sentidos em simultâneo com o aqui e agora, numa visão abrangente cujo alcance é tão vasto como o de uma história épica.
  
Se é verdade que a consciência nuclear constitui o rito de passagem para o conhecimento, é igualmente verdade que os níveis de conhecimento que abrem caminho à criatividade humana são permitidos pela consciência alargada. Quando pensamos no esplendor da consciência e quando pensamos que a consciência é especificamente humana, estamos a pensar na consciência alargada no seu momento de zénite. No entanto, como veremos, a consciência alargada não é uma variedade independente da consciência: pelo contrário, é edificada sobre os alicerces da consciência nuclear. O bisturi da doença neurológica revela que as alterações da consciência alargada deixam incólume a consciência nuclear. Pelo contrário, as alterações que se iniciam ao nível da consciência nuclear arrasam todo o edifício da consciência, e a consciência alargada colapsa também. O esplendor da consciência requer ambas as formas de consciência. Porém, se queremos esclarecer essa gloriosa combinação, devemos começar por compreender a sua forma mais simples e básica: a consciência nuclear.
  
A propósito, os dois tipos de consciência correspondem a dois tipos de si. O sentido do si que surge na consciência nuclear é o si nuclear, uma entidade transitória, recriada incessantemente para todos os objectos com os quais o cérebro interage. Todavia, a nossa noção tradicional do si está ligada à ideia de identidade e corresponde a um conjunto não transitório de factos e modos de ser singulares que caracterizam uma pessoa. A minha designação para essa entidade é a de si autobiográfico. O si autobiográfico depende de memórias sistematizadas de situações em que a consciência nuclear permitiu o conhecimento das características mais invariantes da vida de um organismo: quem foram os pais, onde se nasceu, quando, de que coisas se gosta e que coisas se detestam, a reacção habitual face a um problema ou conflito, o nome, etc. Utilizo o termo memória autobiográfica para designar o arquivo organizado dos principais aspectos da biografia de um organismo. […]
  
  
  
  
  

 O SENTIMENTO DE SI, António Damásio
  
  
  
  
  
  
O TRANSITÓRIO E O PERMANENTE
  
  
A organização da consciência que proponho resolve o aparente paradoxo que William James identificou — segundo o qual, na corrente da nossa consciência, o si muda continuamente à medida que se desloca no tempo, embora, de certo modo, esse si permaneça o mesmo à medida que a existência prossegue. A solução deste aparente paradoxo vem com o facto de o si aparentemente mutável e de o si aparentemente permanente, embora intimamente relacionados, não serem uma só entidade, mas duas. O si em constante mudança identificado por James é o si da consciência nuclear, transitório, efémero, constantemente refeito e renascido. O si que parece permanecer o mesmo é o si autobiográfico, o que se baseia num repositório de memórias biográficas individuais parcialmente reactivadas, que dão assim continuidade e aparente permanência às nossas vidas.
  
Esta organização dupla requer os mecanismos da consciência nuclear e a disponibilidade da memória. A consciência nuclear fornece-nos um si nuclear, mas a memória convencional é necessária para a construção do si autobiográfico, tal como a consciência nuclear e a memória de trabalho são necessárias para tornar o si autobiográfico explícito, isto é, para manifestar os conteúdos do si autobiográfico na consciência alargada. As espécies cuja memória é limitada não enfrentam o paradoxo de James. Habitam um mundo situado num degrau acima da inocência. Têm, com toda a probabilidade, a experiência aparentemente contínua de momentos de individualidade consciente, mas não estão nem sobrecarregadas nem enriquecidas pelas memórias de um passado pessoal e muito menos pelas memórias de um futuro antecipado.
  
Na minha proposta, a consciência nuclear constitui uma faculdade central, produzida por um sistema mental e neural circunscrito. O facto de a consciência nuclear ser central não significa que dependa de uma estrutura única. Já vimos que é necessário um grande número de estruturas neurais para a ocorrência da consciência nuclear. Porém, a complexidade do sistema, a multiplicidade dos seus componentes e a cooperatividade necessária para a sua operação normal, não devem fazer esquecer o seguinte facto: à escala anatómica do cérebro inteiro, o sistema que permite à consciência nuclear (a combinação das regiões que apoiam o proto-si e das regiões que apoiam o relato de segunda ordem) está confinado a um conjunto de regiões anatómicas. Não está uniformemente distribuído por todo o cérebro. Existem muitas regiões cerebrais que não estão de todo relacionadas com a produção da consciência nuclear.
  
A robustez da consciência nuclear provém da sua centralidade anatómica e funcional e do facto de qualquer conteúdo mental, quer seja processado activamente numa interacção directa, quer seja recordado da memória, poder levar o sistema da consciência nuclear a actuar, provocá-lo, por assim dizer, e, ao fazê-lo, gerar uma pulsação de consciência nuclear. A consciência nuclear não está dividida por modalidades sensoriais, por exemplo, consciência nuclear «visual» ou consciência nuclear «auditiva». Pelo contrário, a faculdade central da consciência nuclear pode ser usada por qualquer modalidade sensorial e pelo sistema motor, de modo a gerar conhecimento acerca de qualquer objecto ou movimento.
  
Os conteúdos do si autobiográfico — as memórias organizadas e reactivadas dos factos fundamentais da biografia individual — são os principais beneficiários da consciência nuclear. Sempre que um objecto X provoca uma pulsação de consciência nuclear e o si nuclear emerge em relação ao objecto X, são também consistentemente activados, sob a forma de memórias explícitas, certos conjuntos de factos autobiográficos implícitos que provocam as suas próprias pulsações de consciência nuclear.
  
A qualquer momento da nossa vida, geramos pulsações de consciência nuclear para um ou mais objectos e para um conjunto de memórias autobiográficas reactivadas que os acompanham. Sem estas memórias autobiográficas não teríamos qualquer sentido de passado ou de futuro, não existiria uma continuidade histórica para as nossas pessoas. Mas sem a narrativa da consciência nuclear e sem o si nuclear transitório, que nasce no seu interior, não teríamos qualquer conhecimento do momento presente, do passado memorizado e do futuro antecipado. A consciência nuclear é uma necessidade fundamental. Tem precedência, evolutiva e individualmente, sobre a consciência alargada que agora possuímos. No entanto, sem a consciência alargada, a consciência nuclear nunca teria a ressonância do passado e do futuro. A interdependência da consciência nuclear e alargada é completa.
  

      
  
  
Espécies de si
    
  
  
  
  
             
      
   A seta entre o proto-si não consciente e o si nuclear consciente representa a transformação que ocorre como resultado do mecanismo da consciência nuclear. A seta em direcção à memória autobiográfica indica a memorização de experiências repetidas do si nuclear. As duas setas em direcção ao si autobiográfico significam a sua dependência dupla, em relação quer às pulsações contínuas da consciência nuclear, quer às reactivações contínuas das memórias autobiográficas.
   
    
In O Sentimento de Si. O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, António Damásio, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2000 (1ª ed.). Título Original: The Feeling of What Happens.Versão portuguesa do original americano revista pelo autor e baseada, em parte, numa tradução de M.F.M.
  
  
  
  
Leia ainda “Uma Recensão Direccionada de O Sentimento de Si: Da Consciência Nuclear à Consciência Alargada. Da Memória Autobiográfica à Identidade Pessoal” in http://metafisica.no.sapo.pt/cardim.html


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2009/08/27/consciencia.alargada.aspx]

terça-feira, 25 de agosto de 2009

E Tu És a Música, Mas Só Enquanto a Música Dura: O Si Transitório



  



Espécies de si
  
  
O SI AUTOBIOGRÁFICO: O si autobiográfico baseia-se na memória autobiográfica, constituída por memórias implícitas de múltiplos exemplos de experiência passada individual e de futuro antecipado. Os aspectos invariantes da biografia de um indivíduo formam a base da memória autobiográfica. A memória autobiográfica aumenta continuamente através da vida, mas pode ser parcialmente remodelada, de modo a reflectir novas experiências. Conjuntos de memórias que descrevem identidade e pessoa podem ser reactivados sob a forma de padrões neurais e, sempre que necessário, tornados explícitos sob a forma de imagens. Cada uma das memórias reactivadas funciona como «uma-coisa-que-está-para-ser-conhecida» e gera o seu próprio pulso de consciência nuclear. O resultado é o si autobiográfico, do qual estamos conscientes.
  
O SI NUCLEAR: O si nuclear é inerente ao relato não verbal de segunda ordem que ocorre sempre que um objecto modifica o proto-si. O si nuclear pode ser desencadeado por qualquer objecto. O mecanismo de produção do si nuclear sofre modificações mínimas ao longo de uma vida. Temos consciência do si nuclear.


  
CONSCIÊNCIA
  
O PROTO-SI: O proto-si é um conjunto interligado e temporariamente coerente de padrões neurais que representam, a cada momento, o estado do organismo, a múltiplos níveis do cérebro. Não temos consciência do proto-si.




*

  
O leitor sabe que está consciente e sente que está em pleno acto de conhecer, porque o subtil relato imagético, que está agora a fluir na corrente dos seus pensamentos, manifesta o conhecimento de que o seu proto-si foi modificado por um objecto que agora mesmo se torna saliente na sua mente. O leitor sabe que existe porque, nesta narrativa, o leitor é o protagonista do acto de conhecer. O leitor eleva-se, transitória mas incessantemente, acima da linha de água do conhecimento, sob a forma de organismo sentido, imparavelmente renovado em cada novo instante, graças a toda e qualquer coisa que afecte a sua maquinaria sensorial, vinda do exterior ou recordada da memória. O leitor sabe que existe e que está a ver esta página porque a história da consciência narra um personagem — o leitor no acto de ver. O leitor sabe agora de si, e a primeira base para o si consciente é um sentimento que surge na re-representação do proto-si não consciente, no processo de ser modificado. O primeiro truque da consciência é a criação do relato desta modificação, e a sua primeira consequência é o sentimento do conhecer.
  
O conhecimento nasce nesta história, está embutido no padrão neural transitório que constitui o relato não verbal de segunda ordem. O leitor mal se apercebe do contar da história, porque as imagens que dominam a manifestação mental são as das coisas a que agora está a prestar atenção ? os objectos que vê ou ouve, as coisas que dizemos «ter na consciência» ? e não aquelas que prontamente constituem o sentimento do si no acto de conhecer. Por vezes apenas se apercebe do sussurro da subsequente tradução verbal duma inferência que resulta deste relato: sim, sou eu que vejo, sou eu que ouço ou que toco. Porém, por muito ténue que seja o contar da história, por muito semiadivinhado que o indício seja, quando o contar da história é suspenso por uma doença neurológica, a consciência suspende-se também e a diferença é abissal. (1)
  
T. S. Eliot pode bem ter pensado em qualquer coisa de semelhante quando escreveu, nos Quatro Quartetos, sobre uma «música ouvida tão profundamente que nem sequer é ouvida» e quando disse «tu és a música enquanto a música dura». Pelo menos deve ter pensado no momento fugidio em que um conhecimento profundo emerge ? uma união ou encarnação, tal como Eliot lhe chamou.
  
  
In O Sentimento de Si. O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, António Damásio, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2000 (1ª ed.). Título Original: The Feeling of What Happens.Versão portuguesa do original americano revista pelo autor e baseada, em parte, numa tradução de M.F.M.




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(1)                O leitor poderá pensar que o relato não verbal é uma ficção e que conhecer e si são apenas ilusões. Essa questão é interessante e tem mais de uma resposta possível, mas a minha resposta é que não são ficção. Conseguimos verificar independentemente, a posteriori, no nosso ser e nos outros seres, que os personagens do enredo primordial como, por exemplo, os organismos vivos individuais, os objectos e as relações ilustradas no enredo, são de facto ocorrências consistentes e sistemáticas. Nesse sentido não são ficcionais porque respeitam a verdade. Por outro lado, é difícil imaginar que ilustrem qualquer verdade absoluta. À escala do universo, o feito da consciência é modesto e o que nos permite entrever é limitado.
  
  


domingo, 23 de agosto de 2009

A CAPACIDADE CEREBRAL QUE NOS SOBRA



  
  
[…]
— Julgava que isso do eu era coisa que não existia.
  
— E não existe mesmo tal coisa, se está a referir-se a uma entidade bem determinada e distinta. Mas claro que há vários eus. Estamos sempre a inventá-los… como você inventa as suas histórias.
   
— Está a dizer que as nossas vidas são meras ficções?
   
— De certa forma. Essa é uma das coisas que fazemos com a capacidade cerebral que nos sobra. Inventamos histórias a respeito de nós próprios.
[…]
Após uma pausa Helen pergunta: — O que quis dizer com aquilo da capacidade cerebral que nos sobra?
  
— Ora bem, o cérebro humano é muito maior do que o de qualquer outro animal do planeta. O nosso ADN é apenas diferente em um por cento do dos chimpanzés, os nossos parentes mais próximos, mas o nosso cérebro é três vezes maior. Como é óbvio isso deu aos nossos antepassados primitivos uma enorme vantagem na escala evolutiva. Aprendemos a fazer armas e ferramentas, a comunicar através da linguagem, a resolver problemas através do processamento de várias opções pelo nosso computador mental em vez de nos limitarmos a reagir instintivamente. Fomos capazes de ir além dos quatro Cês. Combater, comer, copular e... defecar.
  
— Ah... — Helen deixou escapar uma risadinha.
  
— Mas as potencialidades do cérebro humano excedem muitíssimo o avanço que temos em termos evolutivos sobre as outras espécies. E isso que eu quero dizer com a capacidade que nos sobra. O homem primitivo era como um tipo a quem deram o último modelo em computadores e se limita a usá-lo para simples operações aritméticas. Mais tarde ou mais cedo vai começar a brincar com ele e acabará por descobrir que pode fazer também muitíssimas outras coisas. Foi o que, com o tempo, acabámos por fazer com o nosso cérebro. Desenvolvemos a linguagem. Começámos a reflectir sobre a nossa própria existência. Tomámos consciência de nós próprios como criaturas com um passado e um futuro, com histórias individuais e colectivas. Desenvolvemos a cultura: a religião, a arte, a literatura, o direito... a ciência. Mas existe a outra face da autoconsciência. Sabemos que vamos morrer. Imagine o choque que isso deve ter sido para o Homem de Neandertal ou para o Homem de Cro-Magnon ou para quem quer que tenha sido o primeiro a descobrir a terrível verdade: que um dia seria apenas carne. Os leões e os tigres não sabem disso. Os macacos não sabem disso. Mas nós sabemos.
  
— Os elefantes devem saber — interpõe Helen. — Têm cemitérios.
  
— Receio que isso seja um mito — diz Ralph. — O homo sapiens foi o primeiro e o único ser vivo na história da evolução a descobrir que era mortal. E depois como é que ele reage? Inventa histórias para explicar como se meteu nesta embrulhada e como poderá sair dela. Inventa a religião, desenvolve ritos funerários, inventa histórias sobre a vida para além da morte e a imortalidade da alma. Com o passar do tempo estas histórias vão-se tornando cada vez mais elaboradas. Mas na etapa mais recente do desenvolvimento cultural, apenas há uns segundos atrás em termos da história da evolução, a ciência desabrocha repentinamente e começa a contar uma história bem diferente acerca do modo como viemos aqui parar, uma história muito mais credível que ganha de longe à religiosa. Hoje em dia já são muito poucas as pessoas inteligentes que acreditam na história contada pela religião, embora continuem a agarrar-se a ela e a procurar consolo em alguns dos seus conceitos, tais como a alma, a vida para além da morte, e por aí fora.
  
— Penso que é precisamente isso que o incomoda, não é? — diz Helen. — Que a maior parte das pessoas continue teimosamente a acreditar que existe um espírito dentro da máquina por mais que os cientistas e os filósofos lhes digam que não.
  
— Não me «incomoda» propriamente — diz Ralph.
  
— Incomoda, sim — diz Helen. — É como se estivesse apostado em eliminá-lo da face da terra. Que nem um inquisidor determinado a pôr fim às heresias.
  
— Só acho que não devemos confundir aquilo que gostaríamos que fosse com aquilo que realmente é — diz Ralph.
  
— Mas admite que temos pensamentos que são privados, secretos, conhecidos apenas de nós próprios.
  
— Sim, claro.
  
— Admite que a minha experiência deste momento, estar aqui refastelada na água quente a contemplar as estrelas, não é exactamente a mesma que a sua?
  
— Estou a ver aonde quer chegar — diz ele. — Está a dizer que existe algo que lhe pertence só a si, ou a mim, uma certa qualidade da experiência que é exclusivamente sua ou minha, que não pode ser descrita com objectividade nem explicada em termos puramente físicos. Aquilo a que poderíamos chamar um eu imaterial ou alma.
  
— Sim, penso que sim.
  
— Pois eu digo que continua a ser uma máquina. Uma máquina virtual dentro de uma máquina biológica.
  
— Então é tudo uma máquina?
  
— Tudo o que processa informação é, sim.
  
— Acho essa ideia aterradora.
  
Ele encolhe os ombros e sorri. — Você é uma máquina que foi programada pela cultura para não reconhecer que é uma máquina. […]
  
  
In Pensamentos Secretos, David Lodge, Porto, Ed. Asa, 2002, pp. 114-116
tradução do original inglês (Thinks…, 2001) por Ana Maria Chaves e Rita Pires.
  

  

terça-feira, 18 de agosto de 2009

CONSCIENCIA





  
  
[…] a investigação da consciência é uma investigação àquilo que nos torna humanos, à forma como sabemos aquilo que sabemos. Ou pensamos que sabemos. Seremos nós animais ou máquinas, ou uma combinação das duas coisas, ou alguma coisa diferente de cada uma delas? Compreender a consciência, ocorreu-me este fim-de-semana, é para a ciência moderna o que a pedra filosofal foi para a alquimia: a última maravilha na demanda do saber.
  
A busca de uma substância capaz de transformar em ouro o vil metal era, claro está, uma busca vã, porque não existe um tal composto, nem pode ser fabricado; mas, no decurso do processo experimental, muitas descobertas genuínas foram feitas — da porcelana à pólvora. Talvez nunca cheguemos a compreender cabalmente a consciência — sei que há especialistas que têm esta perspectiva, e devo dizer que a acho intuitivamente apelativa — mas o esforço para o conseguir já deu azo a muitas descobertas fascinantes sobre o cérebro e a mente […].
  
Foram, porém, muito poucas as referências feitas à literatura durante os trabalhos. O que me surpreende, porque a literatura é um registo escrito da consciência humana, porventura o mais rico que possuímos. Vou radicar as minha observações num pequeno texto literário, um poema — ou, para ser mais exacta, três estâncias do meio de um poema. O poema chama-se O Jardim, foi escrito por Andrew Marvell, um poeta inglês do século XVII, e é uma espécie de ode extasiada à alegria de se experimentar a natureza cultivada. A primeira dessas três estâncias descreve os prazeres sensuais de um jardim ideal. […]
  
  
Que doce Vida levo aqui neste lugar!
Maduros Pomos me cercam a balouçar;
Voluptuosos cachos, qual miragem,
Na minha boca em vinho se desfazem;
Os damascos e os pêssegos, curiosos,
Para as minhas mãos se estendem, ansiosos;
Tropeço nos melões, meu passo erra,
Enleado em flores caio por terra.
What wondrous life is this I lead! 
Ripe apples drop about my head ; 
The luscious clusters of the vine 
Upon my mouth do crush their wine ; 
The nectarine and curious peach 
Into my hands themselves do reach ; 
Stumbling on melons as I pass, 
Insnared with flowers, I fall on grass.
  
  
Ouvimos falar muito dos qualia […]. Vejo que as opiniões se dividem quanto a serem uma proeza do cérebro ou uma proeza da mente, fenómenos na primeira pessoa, eternamente inacessíveis ao discurso científico na terceira pessoa, ou padrões regulares da actividade neurológica que apenas se tornam problemáticos quando os traduzimos para a linguagem verbal. Não sou competente para arbitrar neste assunto. Mas deixem-me chamar a vossa atenção para um paradoxo contido na estância de Marvell, o qual se aplica à poesia lírica em geral. Embora fale na primeira pessoa, Marvell não está a falar apenas em seu nome. Ao lermos esta estância extrapolamos para a nossa experiência dos qualia de fruto e de fruição. Vemos o fruto, sentimos-lhe o gosto e o perfume, e saboreamo-lo com aquilo que foi designado por a excitação do reconhecimento, embora o fruto não esteja presente, embora seja apenas a realidade virtual de um fruto invocada pelos qualia do próprio poema, uma combinação única e subtil de sons, ritmos e significados, que eu poderia tentar analisar se houvesse mundo e tempo que chegassem, para citar um outro poema de Marvell — mas não há.
  
Na próxima estância Marvell volta-se para a natureza privada, subjectiva, da consciência. […]
  
  
Enquanto isto, a Mente, de Prazer esgotada,
Recolhe-se à Felicidade encontrada:
A Mente, esse Oceano onde cada ente
Logo encontra o seu equivalente,
Cria porém, transcendendo todos,
Outros Mundos e outros Mares a rodos;
Reduzindo tudo o que foi criado
A um conceito verde em verde sombra olhado.
Meanwhile the mind, from pleasure less, 
Withdraws into its happiness : 
The mind, that ocean where each kind 
Does straight its own resemblance find ; 
Yet it creates, transcending these, 
Far other worlds, and other seas ; 
Annihilating all that's made 
To a green thought in a green shade.
  
  
Há uma alusão no quarto verso a uma crença bizarra, mas muito comum na época, de que todas as criaturas tinham os seus correlativos no mar, o que coloca o poema numa era pré-científica. Mas isto não passa de um tropo, o que não afecta, creio eu, a validade da proposição central da estância: que a consciência humana é a única capaz de imaginar aquilo que não é fisicamente apreensível pelos sentidos, capaz de imaginar coisas que não existem, capaz de criar mundos imaginários (como os romances) e capaz de ter pensamentos abstractos — de distinguir por exemplo a ideia de cor (um conceito verde) da sensação de cor (em verde sombra olhado).
  
É isto dualismo? Bem, se qualquer distinção entre mente e corpo é dualismo, então suponho que é, se bem que me pareça difícil evitá-lo, tão profundamente enraizado está na linguagem e hábitos de pensamento. Mesmo os mais tenazes opositores da teoria do espírito dentro da máquina acabariam, contrariados embora, por nos deixarem usar os termos, mente e corpo, desde que ficasse entendido que a primeira é uma função do segundo e dele inseparável.
  
Todavia, Marvell, como todos os homens da sua época, era dualista num sentido muito mais forte do que esse, o que se torna evidente na estância seguinte. […]
  
  
Aqui, nas Fontes de pedra escorregadia,
Ou entre as Arvores que o musgo acaricia,
Do Corpo a Veste enfim despindo
Minha Alma para os ramos vai subindo:
Neles pousa, como um Pássaro e, trinando,
As argentinas Asas com o bico vai alisando;
E, até estar preparado para voo mais alongado,
Reflecte em suas Plumas os Matizes variegados.
Here at the fountain's sliding foot, 
Or at some fruit-tree's mossy root, 
Casting the body's vest aside, 
My soul into the boughs does glide : 
There like a bird it sits and sings, 
Then whets and combs its silver wings ; 
And, till prepared for longer flight, 
Waves in its plumes the various light.
  
  
Descartes, segundo tenho ouvido dizer, acreditava na imortalidade da alma, porque era capaz de imaginar a sua mente a existir separada do corpo. Marvell expressa essa ideia na belíssima imagem do pássaro. Ele imagina a sua alma a deixar temporariamente o corpo para se empoleirar no ramo de uma árvore, onde alisa as penas e se prepara para o voo final até ao céu. Não estou à espera de vos levar com ele até lá. Uma tal ideia da alma seria hoje fantasiosa, mesmo para os cristãos mais crentes. Mas a ideia cristã da alma está ligada à ideia humanista do eu, isto é, o sentimento de identidade pessoal, o sentimento de que a vida mental e emocional tem uma unidade, uma extensão no tempo e uma responsabilidade ética por vezes denominada consciência.
  
A ideia do eu está hoje debaixo de fogo, não só em grande parte do debate científico sobre a consciência, mas também nas humanidades. Dizem-nos que é uma ficção, uma construção, uma ilusão, um mito. Que cada um de nós não passa de um saco de neurónios, ou de uma encruzilhada de discursos convergentes, ou de um computador a funcionar sozinho em paralelo, sem operador. Como ser humano e como escritora, considero essa visão da consciência abominável — e intuitivamente nada convincente. Quero continuar agarrada à ideia tradicional de um eu autónomo e individual. Tanto do que prezamos na civilização parece depender dela — a lei, por exemplo, e os direitos humanos — incluindo os direitos de autor. Marvell escreveu O Jardim antes de ter surgido o conceito de direitos de autor, mas uma coisa é certa, mais ninguém o poderia ter escrito e mais ninguém voltará a escrevê-lo — excepto na acepção trivial de o copiar palavra por palavra.
  
O poema é uma celebração, centra-se na consciência como um estado de felicidade. É um poema acerca da felicidade plena. Há, porém, uma dimensão trágica na consciência que também quase não foi aflorada nesta conferência. Há a loucura, a depressão, a culpa e o pavor. Há o medo da morte — e, mais estranho que tudo o resto, o medo da vida. Se os seres humanos são as únicas criaturas vivas que realmente sabem que vão morrer, são também as únicas que, conscientemente, põem termo à vida. Para certas pessoas, em certas circunstâncias, a consciência torna-se tão insuportável que se suicidam para lhe pôr fim. Ser ou não ser? é uma pergunta peculiarmente humana. A Literatura também nos pode ajudar a compreender o lado negro da consciência.
  
  
In Pensamentos Secretos, David Lodge, Porto, Ed. Asa, 2002, pp. 339-343
tradução do original inglês (Thinks…, 2001) por Ana Maria Chaves e Rita Pires.
  
  
[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2009/08/18/CONSCIENCIA.aspx]



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. "Sobre a alma", por Frederico Lourenço.