terça-feira, 26 de agosto de 2008

T. S. Eliot lido por Ted Hughes







Virginia — por T. S. Eliot
  
Rio barrento, rio barrento,
o seu curso lento e quente é o silêncio.
Não há desejo mais calmo do que a calma
de um rio. Mover-se-á o calor
apenas no canto do mimo
uma vez ouvido? Os montes ainda
aguardam. Os portões aguardam. As árvores púrpura,
as árvores brancas, aguardam, aguardam,
a demora, o declínio. Vivendo, vivendo
sem se moverem. Pensamentos firmes
sempre em movimento comigo chegaram
e comigo partirão:
rio, rio, rio barrento.
  
Virginia — by T. S. Eliot
  
Red river, red river,
Slow flow heat is silence
No will is still as a river
Still. Will heat move
Only through the mocking-bird
Heard once? Still hills
Wait. Gates wait. Purple trees,
White trees, wait, wait,
Delay, decay. Living, living,
Never moving. Ever moving
Iron thoughts came with me
And go with me:
Red river, river, river.
  


 Red River (Virginia, E.U.A.)    
   
   
Depoimento do poeta britânico Ted Hughes sobre este poema de T. S. Eliot. O poema chama-se “Virginia”, um dos Estados do sul profundo norte-americano.

   
Se sentem este poema como eu, certamente terão ficado impressionados com a forma viva e intensa como nos refere um lugar. Ocorre-nos até pensar que podemos pintar esse lugar. E contudo, que há de descrição no poema? As árvores púrpura estarão perto das árvores brancas? Os portões serão de jardim ou existirão no campo? E haverá casas? As árvores estão junto ao rio? Nos montes? O poema não o diz. Como pode, então, criar uma imagem tão forte? Fá-lo por conseguir transmitir um sentir vivo e intenso. O que o poema, de facto, descreve é a lentidão dominada pela calma, o tempo em suspensão, o calor, a aridez, a exaustão, num tom que sugere a iminência de um perigo opressivo, como uma tarde muito quente antes dos trovões e dos relâmpagos, um dia indolente no sul profundo. Tudo está contido no lento desenrolar progressivo das frases. Talvez a melhor maneira de captar o sentido seja pensar nele como se as palavras fossem enunciadas pelo próprio rio, descrevendo o seu avanço por entre as terras entorpecidas de calor. Os montes, os portões, as árvores brancas, as árvores púrpura, passam sobre o rio, movendo-se mas continuando no seu sítio, como se fossem reflexos à superfície da qual ele vai avançando lentamente.
   
… Vivendo, vivendo
sem se moverem. Pensamentos firmes
sempre em movimento comigo chegaram
e comigo partirão: ...
   
   
Ted Hughes, O FAZER DA POESIA
traduções de Helder Moura Pereira
Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, pp. 106-108
   
   


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2008/08/26/eliot.aspx]

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

António Franco Alexandre lido por Óscar Lopes



    

POEMA INICIAL DE VISITAÇÃO
  
suponha que desprende desaprende
que só de si depende separar-se
em esse início a boca desatenta
em mudo ouvido
suponha que me inventa
  
o liminar deserto desenhando
num princípio de breves acidentes
suponham que conheço a sua terra
o aroma irrespirável dos teares
o azeite da ira e
suponham que os invento
  
suponha que nasci no mississipi
aprendi a falar no vão do vento
os lábios dos navios já não entendem
o amor às idades muito
lentas
suponho que o invento
  
suponha que o início não começa
suponha que o princípio não limita
as palavras são duros tornozelos
o sol ruiu nos vidros deslavados
quase ninguém ou nada
o mergulho da tarde inventa.
  
eu simplesmente ardi fui o retrato
das suas mãos que tecem pesadelos
na margem que deixaram
as migrações do vento
  
o meu país tem dormições abertas
o público dos seus
doces tormentos
eu simplesmente ouvi a luz dos ventos
  
António Franco Alexandre, Gota de Água, 1983.
  
  
   


Óscar Lopes (in Cifras do Tempo, Ed. Caminho, 1990) aponta sete graus, não de exata sucessão, mas de faseamento numa leitura deste poema:
  
  1. fruição de lúdicas recorrências de rimas internas ou finais, ressonâncias, assonâncias (desaprende, inventa), paranomásias (desprende, desaprende), aliterações (que só de si depende separar-se), de estribilhos modulados (supunha, supunham, suponho), etc.;  
  2. observação de imagens ou metáforas surpreendentes (o mundo ouvido, o azeite da ira, vão do vento, lábios dos navios, palavras-tornozelos, dormições abertas, etc.)
  3. saliência de incidências aleatórias: nasci no mississipi; amor às idades muito / lentas; ardi fui o retrato; o sol ruiu nos vidros deslavados; luz dos ventos; etc.  
  4. percepção de modulações básicas nos verbos supor inventar, frequentemente excitando o principal nervo do poema: a injunção/constatação de supor e ser suposto, de inventar e ser inventado, se supor que se inventa (por que não também inventar que se supõe?), ora na activa ora na passiva, com oscilação quanto a haver ou não alocutário;
  5. sugestão pervasiva de desprendimento pensante ou imaginante quanto a ser emissor, destinatário, meio ou mensagem do poema, quanto ao início ou duração, limitação ou ilimitação, presente ou pretérito, acção (só de si depende) ou passividade;
  6. globalmente, pouco mais pode compreender-se do que isto: um poema que sugere a perfeita gratuidade do dizer poético (boca atenta / em mudo ouvido; quase ninguém ou nada / o mergulho da tarde nos inventa; dormições abertas); um país onde quase ninguém diz e nada é dito, ou ouvido, ou percebido, mas esse quaseninguém ou nada está na base de uma asserção eventualmente personificável ou apreensível; há evidentes sugestões de uma fase do dia: o mergulho da tarde;
  7. impressão provisoriamente final: uma poesia do subliminar, mas de um subliminar que todavia acede à palavra, como configuração semi-inteligível e todavia flagrante.


Poderá também gostar de:


Entrevista conduzida por Raquel Santos a António Franco Alexandre, poeta e docente de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
  • Nome do Programa: António Franco Alexandre
  • Nome da série: Entre Nós
  • Locais: Portugal
  • Canal: RTP Int
  • Data: 2006-05-02
  • URL: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/antonio-franco-alexandre/#sthash.XDP1zUJu.wZgMPtV8.dpbs

Resumo Analítico

Início da conversa com referência ao percurso académico do entrevistado; Relações entre a Poesia, a Filosofia e a Matemática; Relato das experiências como docente universitário; Temáticas da sua poesia e opinião sobre a auto-crítica dos escritores; processos criativos; Destaque para o livro de poesia Aracne do qual diz um poema em conjunto com Raquel Santos que lê a última parte desse poema; Destaque para o seu livro de poesia intitulado Poemas; Análise da sua poesia e do seu modo de escrever.  

  
[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2008/08/21/AntonioFrancoAlexandre.aspx]

sábado, 16 de agosto de 2008

Uma ópera para Teresa e Byron, por J.M.Coetzee

  
Lord Byron and Teresa Guiccioli, por Masolino Da Panicale

  

BYRON EM ITÁLIA
  
  
Na sua primeira versão, a ópera girava em torno de Lorde Byron e da sua amante a Condessa Guiccioli. Presos na Vivenda Guiccioli, no calor sufocante do Verão de Ravenna, espiados pelo marido ciumento de Teresa, os dois vagueariam pelos salões sombrios cantando a sua malograda paixão. Teresa sente-se aprisionada; manifesta ressentimento e insiste com Byron para que a leve para outra vida. Quanto a Byron, está cheio de dúvidas, embora seja suficientemente prudente para não as expressar em voz alta. Suspeita que os arrebatamentos apaixonados que tiveram em tempos não se venham a repetir. A sua vida acalmou; obscuramente, começou a ansiar por um isolamento sossegado. E, não podendo ter isso, então a apoteose e a morte. As sublimes árias de Teresa não lhe despertam qualquer desejo; a sua própria voz, obscura, convoluta, passa por ela e não penetra, atravessa-a.
  
Foi assim que a concebeu: como uma peça de câmara sobre amor e morte, com uma jovem apaixonada e um homem mais velho, em tempos também ele apaixonado, mas não agora; como uma acção apoiada por música complexa e irrequieta, cantada num inglês que evoca continuamente um italiano imaginado.
  
Superficialmente, esta concepção não é mal pensada. As personagens são bastante equilibradas: o casal encurralado, a amante abandonada batendo nas janelas, o marido ciumento. E até a vivenda, com os macacos de estimação de Byron pendurados languidamente nos candelabros e os pavões a passearem-se de um lado para o outro por entre a pomposa mobília napolitana, ostenta a mistura certa de intemporalidade e decadência.
  
Contudo, primeiro na quinta de Lucy e agora aqui, não consegue entregar -se ao projecto de alma e coração. Há algo de errado na sua concepção, algo que não vem do coração. Uma mulher que se queixa aos céus por os criados estarem a espiá-la e ter de aliviar os seus desejos com o amante num armário para vassouras — que interessa isso? Consegue arranjar palavras para Byron, mas a Teresa que a história lhe legou — jovem, gananciosa, obstinada, petulante — não coincide com a música com que sonhou, música essa cujas harmonias, luxuriantemente outonais e contudo de uma ironia acutilante, consegue escutar velada na sua mente.
  
Tenta outra via. Abandonando as páginas de anotações que escreveu, abandonando a ousada e precoce jovem recém-casada com o seu amado Lorde inglês, tenta recriar Teresa na Idade Média. A nova Teresa é uma viúva roliça de baixa estatura que vive na Vivenda Gamba com o pai idoso, tratando da lida da casa, apertando os cordões à bolsa, sempre atenta para que os criados não roubem açúcar. Byron, nesta nova versão, há muito que faleceu; a única aspiração de Teresa à imortalidade e o conforto das noites passadas em solidão é a arca cheia de cartas e recordações que tem debaixo da cama, a que ela chama as suas reliquiae, que as suas sobrinhas abrirão após a sua morte e examinarão com reverência. Será esta a heroína de que ele tem andado à procura? Será que uma Teresa mais velha lhe absorverá o coração, encontrando-se o seu coração no estado em que se encontra neste momento?
  
O tempo não foi simpático para Teresa. Com o peito pesado, o tronco atarracado, as pernas curtas, parece-se mais com uma camponesa, uma contadina, do que com uma aristocrata. As feições que Byron em tempos tanto admirava, tornaram-se hécticas; no Verão tem ataques de asma que a deixam sem respirar.
  
Nas cartas que Byron lhe escreveu chama-lhe Minha amiga, depois Meu amor e, depois,Meu amor para sempre. Mas existem outras cartas, cartas a que ela não tem acesso e às quais não pode deitar fogo. Nessas cartas, dirigidas aos seus amigos ingleses, Byron trata-a com desrespeito, colocando-a na lista das suas conquistas italianas, troça do marido dela, alude a mulheres do seu meio com quem dormiu. Durante os anos que se seguiram à morte de Byron, os seus amigos escreveram memórias atrás de memórias com base nas suas cartas. Depois de conquistar a jovem Teresa, rezam as histórias, Byron depressa perdeu o interesse por ela; achava-a de cabeça oca; ficou com ela apenas por obrigação; foi para fugir dela que partiu para a Grécia e para a sua morte. Estas calúnias magoam-na imenso. Os anos que passou com Byron são o ponto mais alto da sua vida. O amor de Byron é tudo o que a faz sentir diferente, a faz sentir alguém. Sem ele, ela não é nada: uma mulher que já viveu a mocidade, sem planos, passando os dias numa cidade de província, trocando visitas com amigas, massajando as pernas do pai quando lhe doem, dormindo sozinha.
  
Conseguirá amar esta mulher feia e vulgar? Conseguirá amá-la o suficiente para compor música para ela? Se não conseguir, o que lhe resta?
  
Regressa ao que deve ser agora a cena de abertura. O fim de mais um dia abafado. Teresa encontra-se à janela do primeiro andar da casa do pai, olhando para lá dos pântanos e dos pinheirais da Romagna, em direcção ao sol que brilha no Adriático. Fim do prelúdio; silêncio; respira fundo. Mio Byron, canta ela, com a voz vibrante de tristeza. Um clarinete a solo responde-lhe, decresce, fica em silêncio. Mio Byron, chama outra vez, com mais força.
  
Onde está ele, o seu Byron? Byron está perdido, é essa a resposta. Byron vagueia por entre as sombras. E ela também está perdida, a Teresa que ele amava, a rapariga de dezanove anos com os seus caracóis loiros, que se ofereceu com tanta alegria ao irresistível cavalheiro inglês, acariciando-lhe depois a fronte, enquanto ele permanecia deitado por cima do seu peito nu, respirando profundamente, entorpecido após a grande paixão.
  
Mio Byron, canta pela terceira vez; e, vinda de algures, das profundezas, uma voz responde-lhe cantando, vacilante e desencarnada, a voz de um fantasma, a voz de Byron. Ondeestás? canta a voz; e, depois, uma palavra que ela não deseja escutar: secca, seca. Secou, a fonte de tudo.
  
Tão ténue, tão balbuciante é a voz de Byron que Teresa tem de repetir as suas palavras, ajudando-o palavra a palavra, ressuscitando-o: o seu filho, o seu menino. Estou aqui, canta, apoiando-o, salvando-o, evitando que se afunde. Sou a tua fonte. Lembras-te quando visitámos juntos a nascente de Arquà? Juntos, tu e eu. Eu era a tua Laura. Lembras-te?
  
Tem de ser assim, daqui para a frente: Teresa dando voz ao seu amado e ele, o homem na casa saqueada, dando voz a Teresa. O aleijado a guiar o coxo, à falta de melhor.
  
Aumentando ao máximo o seu ritmo de trabalho, agarrando-se com força a Teresa, tenta esboçar as primeiras páginas de um libreto. Pensa que é preciso pôr as palavras no papel. Depois de o fazer, tudo será mais fácil. Então, terá tempo para estudar os mestres — Gluck, por exemplo — tirando melodias, talvez — quem sabe? — tirando ideias também.
  
Mas com o passar do tempo, à medida que começa a ter os dias mais preenchidos com Teresa e com o falecido Byron, torna-se-lhe evidente que canções surripiadas não servirão, que aqueles dois exigirão uma música própria. E, surpreendentemente, aos poucos, a música aparece. Por vezes o contorno de uma frase surge-lhe antes mesmo de saber o que as próprias palavras serão; por vezes as palavras chamam a cadência; por vezes a sombra de uma melodia, depois de pairar durante dias no ouvido, revela-se-lhe inteira. À medida que a acção começa a desenrolar-se, evoca as modulações e transições de acordes que sente no sangue mesmo quando não possui os recursos musicais para as realizar.
  
Senta-se ao piano e começa a juntar os fragmentos do início de uma partitura. Mas há algo no som do piano que o embaraça: demasiado arredondado, demasiado físico, demasiado rico. No sótão, numa arca cheia de livros e brinquedos velhos de Lucy, encontra o pequeno banjo de sete cordas que comprou nas ruas de KwaMashu, quando ela era criança. Com a ajuda do banjo, começa a tocar a música que Teresa, ora pesarosa, ora zangada, cantará ao seu amado já falecido, a que o som mortiço da voz de Byron responderá da terra das sombras.
  
Quanto mais persegue a Condessa para as suas profundezas, cantando-lhe palavras e trauteando-lhe a linha melódica, mais inseparável se torna dela o ridículo plinc-plonc do banjo de brincar, o que não deixa de o surpreender. Começa a abandonar lentamente as árias luxuriantes com que tinha sonhado; é só um passo daí até colocar-lhe o instrumento nas mãos. Em vez de se pavonear pelo palco, Teresa senta-se agora a olhar para os portões do inferno por cima dos pântanos, tocando o bandolim com o qual acompanha os seus voos líricos; enquanto isto, a um lado, um trio discreto de calções pelos joelhos (violoncelo, flauta, fagote) preenchem os entreactos ou fazem parcimoniosamente comentários entre estrofes.
  
Sentado à escrivaninha, olhando para o jardim maltratado, maravilha-se com o que o pequeno banjo lhe está a ensinar. Seis meses atrás pensara que o seu lugar fantasmagórico emByron em Itália seria algures entre Teresa e Byron: entre o anseio de prolongar o Verão do corpo apaixonado e uma lembrança relutante do longo sono do esquecimento. Mas estava enganado. Afinal de contas, não é o erótico que o chama, nem o elegíaco, mas sim o cómico. Ele não está na ópera como Teresa, como Byron ou como uma mistura de ambos: está preso à própria música, ao som rápido, menor, minúsculo das cordas do banjo, essa voz que se esforça por se afastar do burlesco instrumento, mas que é continuamente retida, como um peixe no anzol.
  
Com que então, é isto a arte e é assim que funciona! Que estranho! Que fascinante!
  
Passa dias inteiros agarrado a Byron e a Teresa, alimentando-se apenas de café e cereais. O frigorífico está vazio, a cama por fazer; folhas esvoaçam pelo chão perto da janela partida. Não interessa, pensa: os mortos que enterrem os seus mortos.
  
Foi com os poetas que aprendi a amar, canta Byron no seu tom monótono e dissonante, nove sílabas na escala natural de Dó; mas a vida, descobri (descendo cromaticamente para o Fá), é outra história. Plinc-plonc-plunc fazem as cordas do banjo. Oh, diz-me, porque falas assim?canta Teresa num longo arco exprobratório. Plunc-plinc-plonc fazem as cordas.
  
Teresa quer ser amada, quer ser amada para todo o sempre; quer fazer companhia às Lauras e às Floras de outrora. E Byron? Byron será fiel até à morte, mas é tudo o que promete.Ficaremos juntos até a morte levar um de nós.
  
Meu amor, canta Teresa, avolumando o dissílabo já de si opulento que aprendeu na cama do poeta. Plinc, ecoam as cordas. Uma mulher apaixonada, espojando-se no amor; um gato no telhado, miando; complexas proteínas redemoinhando no sangue, distendendo os órgãos sexuais, fazendo transpirar as palmas das mãos, e a voz, espessa como a alma, bradar com veemência as suas ânsias aos céus. […] Teresa na casa de seu pai em Ravenna, para seu infortúnio, não tem ninguém que lhe sugue o veneno. Vem até mim, mio Byron, grita; vem até mim e ama-me!E Byron, sem vida, lívido como um fantasma, responde escarninho: Vai-te, vai-te, vai-te!
  
Há anos atrás, quando vivia em Itália, visitou a mesma floresta entre Ravenna e a costa do Adriático onde um século e meio antes Byron e Teresa costumavam andar a cavalo. Algures por entre aquelas árvores deve encontrar-se o local onde o cavalheiro inglês levantou pela primeira vez as saias da rapariga de dezoito anos, noiva de outro homem, que o enfeitiçou. Podia ir de avião até Veneza no dia seguinte, apanhar o comboio para Ravenna, vaguear pelos velhos caminhos, passar por esse mesmo local. Está a inventar a música (ou a música a inventá-lo a ele), mas não está a inventar a história. Debaixo daqueles pinheiros Byron possuiu a sua Teresa — «tímida como uma gazela», chamou-lhe ele — amarrotando-lhe a roupa, enchendo-lhe a roupa interior de areia (os cavalos ao lado deles, desinteressados) e nesse momento nasceu uma paixão que fez Teresa bradar aos céus para o resto da sua vida natural numa febre que também o fez bradar.
  
Teresa guia-o; página após página, ele segue-a. Depois, certo dia, outra voz emerge das trevas, uma voz que ele nunca ouvira antes e que não esperava escutar. Pelas palavras, sabe que essa voz pertence à filha de Byron, Allegra; mas, de dentro dele, de onde vem essa voz?Por que me abandonaste? Vem buscar-me! pede Allegra. Que calor, que calor, que calor!queixa-se, num ritmo próprio que corta insistentemente as vozes dos amantes.
  
Não há qualquer resposta ao chamamento da inconveniente criança de cinco anos. Desengraçada, mal-amada, negligenciada pelo seu famoso pai, anda de mão em mão até que as freiras tomam conta dela. Que calor, que calor! geme deitada na cama do convento onde está a morrer de malária. Por que te esqueceste de mim!
  
Por que não lhe responderá o pai? Porque já teve vida que chegue; porque preferia estar onde merece, na outra margem da morte, afundado no seu velho sono. Minha pobre filhinha!Canta Byron, hesitante, relutante, baixo demais para ela conseguir ouvi-lo. Sentados nas sombras, a um lado, o trio de instrumentistas toca uma canção de embalar — uma linha ascendente; a outra descendente, a de Byron.
  
[…]
  
Com a camisa de noite vestida, Teresa está à janela do quarto. Tem os olhos fechados. É a hora mais escura da noite: respira pesadamente, acompanhando o sussurrar do vento, o coaxar das rãs.
  
— Che vuol dir — canta, num tom de voz pouco mais que um suspiro — Che vuol dire questa solitudine immensa? Ed io — canta — che sono?
  
Silêncio. A solítudíne immensa não lhe responde. Até os elementos do trio, ao canto, permanecem silenciosos como arganazes.
  
— Vem! — diz ela num sussurro — Vem ter comigo, suplico-te, meu Byron! —Abre os braços, abraçando a escuridão, abraçando o que ela lhe vai trazer.
  
Quer que ele venha com o vento, que a envolva, que esconda o rosto na clivagem dos seus seios. Ou, em alternativa, que ele chegue com a madrugada, que surja no horizonte como um deus-sol arremessando sobre ela o seu calor intenso. Quer tê-lo de volta sob qualquer forma.
  
Sentado à mesa no pátio dos cães, ele escuta a triste e arrebatadora curvatura do pedido de Teresa ao confrontar a escuridão. É uma altura má do mês para Teresa, está desgostosa, não pregou olho, está desvairada de ansiedade. Quer que a salvem — da dor, do calor do Verão, da Villa Gamba, do mau feitio do pai, de tudo.
  
Pega no bandolim que estava pousado numa cadeira. Embalando-o como a uma criança, volta para a janela. Plinc-plonc faz o bandolim nos seus braços, suavemente, para não acordar o pai. Plinc-plonc estrila o banjo no pátio desolado, em África.
  
Apenas algo para passar o tempo, disse ele a Rosalind. Uma mentira. A ópera não é um passatempo, deixou de o ser. Ocupa-o noite e dia. Contudo, apesar dos bons momentos, a verdade é que Byron em Itália não está a andar para a frente. Não tem acção, desenvolvimento, não passa de uma cantilena longa e vacilante proferida por Teresa para a atmosfera vazia, entrecortada de quando em vez pelos gemidos e suspiros de Byron em off. O marido e a amante rival foram esquecidos, como se não existissem. O seu impulso lírico não pode ter morrido, mas após décadas de míngua pode ter saído da sua caverna angustiado, enfezado, deformado. Ele não possui os recursos musicais nem as reservas de energia para conseguir tirar Byron em Itáliada monotonia em que caiu desde o início. Tornou-se o género de trabalho que um sonâmbulo poderia escrever.
  
J. M. Coetzee, Disgrace (1999)
(Desgraçatradução de José Remelhe, revisão de Ana Maria Chaves para Publicações Dom Quixote, 2000)
       
   



[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2008/08/16/Teresa.Byron.aspx]

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

«Lara» de Lord Byron (Canto I, estância XVIII lida por J.M.Coetzee)

  
 XVIII.
  
 There was in him a vital scorn of all:
 As if the worst had fall'n which could befall,  He stood a stranger in this breathing world,  An erring spirit from another hurled;  A thing of dark imaginings, that shaped  By choice the perils he by chance escaped;  But 'scaped in vain, for in their memory yet  His mind would half exult and half regret:  With more capacity for love than earth  Bestows on most of mortal mould and birth,  His early dreams of good outstripp'd the truth,  And troubled manhood followed baffled youth;  With thought of years in phantom chase misspent,  And wasted powers for better purpose lent;  And fiery passions that had poured their wrath  In hurried desolation o'er his path,  And left the better feelings all at strife  In wild reflection o'er his stormy life;  But haughty still and loath himself to blame,  He called on Nature's self to share the shame,  And charged all faults upon the fleshly form  She gave to clog the soul, and feast the worm;  Till he at last confounded good and ill,  And half mistook for fate the acts of will:  Too high for common selfishness, he could  At times resign his own for others' good,  But not in pity, not because he ought,  But in some strange perversity of thought,  That swayed him onward with a secret pride  To do what few or none would do beside;  And this same impulse would in tempting time  Mislead his spirit equally to crime;  So much he soared beyond, or sunk beneath,  The men with whom he felt condemned to breathe,  And longed by good or ill to separate  Himself from all who shared his mortal state;  His mind abhorring this had fixed her throne  Far from the world, in regions of her own;  Thus coldly passing all that passed below,  His blood in temperate seeming now would flow:  Ah! happier if it ne'er with guilt had glowed,  But ever in that icy smoothness flowed!  'Tis true, with other men their path he walked,  And like the rest in seeming did and talked,  Nor outraged Reason's rules by flaw nor start,  His madness was not of the head, but heart;  And rarely wandered in his speech, or drew  His thoughts so forth as to offend the view.
  
Byron (Inglaterra, 1788-1824)
Lara (1814), Canto I, Estância XVIII
  
  
  
  
  
— Prosseguimos com Byron — diz ele, mergulhando nas suas anotações. — Como vimos na semana passada, a celebridade e o escândalo afectaram não apenas a vida de Byron mas também a forma como os seus poemas foram recebidos pelo público. Byron viu-se fundido com as suas próprias criações poéticas — com Harold, com Manfred, até mesmo com Don Juan. […]
  
Mandara-os ler «Lara». As suas anotações são sobre «Lara». Não há forma de poder escapar ao poema. Lê em voz alta:
  
  
Era um estranho neste mundo respirado,
Espírito errante de um outro mundo tombado;
Uma coisa de obscuros intentos, que moldou
Pela escolha os perigos a que por sorte escapou.
  
  
— Qual de vocês vai dissecar estas linhas? — Quem é este «espírito errante»? Por que razão se autodenomina ele «uma coisa»? De que mundo vem ele?
  
Há já muito tempo que deixara de se surpreender com a ignorância dos seus alunos. Pós-cristãos, pós-história, pós-alfabetizados, até parecia que tinham nascido ontem. Por isso, não espera que saibam algo acerca de anjos caídos ou de onde Byron possa ter lido a seu respeito. O que ele espera é uma série de tentativas bem intencionadas, as quais, com alguma sorte, ele poderá levar ao bom caminho. Mas hoje apenas há silêncio, um silêncio tenaz que se baseia obviamente na figura do desconhecido que se encontra entre eles. Não falarão, não entrarão no seu jogo enquanto um desconhecido ali estiver a escuta a fazer julgamentos, a gozar.
  
— Lúcifer — diz ele. — O anjo caído do paraíso. Pouco sabemos acerca da forma como os anjos vivem, mas podemos partir do princípio de que não necessitam de oxigénio. Na sua terra, Lúcifer, o anjo negro, não tem necessidade de respirar. De repente, dá por si atirado para este mundo desconhecido «onde se respira». «Errante»: um ser que escolhe o seu próprio destino, que vive perigosamente, chegando mesmo a criar o perigo. Vamos ler mais um pouco.
  
O rapaz não olhou para o livro uma única vez. Em vez disso, com um pequeno sorriso nos lábios, um sorriso onde existe, possivelmente, um laivo de perplexidade, absorve as suas palavras.
  
  
                                                                      Podia
renunciar ao seu pelo bem que aos outros faria,
Mas não por pena, por dever ou sentimento,
Mas sim por uma estranha perversidade de pensamento,
Que o impelia para a frente com um orgulho velado,
A fazer o que poucos ou nenhuns teriam gizado;
E este mesmo impulso iria, pela tentação,
Conduzir ao crime a sua mente e o seu coração.
  
  
— Portanto, que tipo de criatura é este Lúcifer?
  
Neste momento, de certeza que os alunos sentem a corrente a passar entre os dois — ele e o rapaz. A pergunta foi dirigida apenas ao rapaz; e, como quem acorda de repente, o rapaz responde. — Ele faz o que lhe apetece. Não lhe importa se é bom ou mau. Limita-se a fazê-lo.
  
— Exactamente. Bom ou mau, ele limita-se a fazê-lo. Ele não actua por princípios, mas sim por impulsos, e a fonte dos seus impulsos é-lhe desconhecida. Vamos ler mais umas linhas: — «A sua loucura não se encontra na cabeça, mas no coração». Um coração louco. O que é um coração louco?
  
Está a perguntar de mais. O rapaz gostaria de levar a sua intuição mais longe, compreende-o. Quer mostrar que não percebe apenas de motas e roupas vistosas. E se calhar até é verdade. Talvez saiba mesmo o que é ter um coração louco. Mas aqui, nesta sala de aula, na presença destes desconhecidos, as palavras não saem. Abana a cabeça.
  
— Não interessa. Reparem que não nos é pedido que condenemos este ser de coração louco, este ser com o qual há continuamente algo de errado. Pelo contrário, somos convidados a compreendê-lo e a simpatizar com ele. Mas existe um limite para a simpatia. Embora viva entre nós, não é um de nós. Ele é exactamente aquilo que se auto-denomina: uma coisa, ou seja, um monstro. Por fim, Byron sugere que não será possível amá-lo, pelo menos no sentido mais profundo, no sentido mais humano da palavra. Ele será condenado à solidão.
  
As cabeças baixam-se, escrevinhando as suas palavras. Byron, Lúcifer, Caim, para eles é tudo o mesmo.
       
J. M. Coetzee, Disgrace (1999)
(Desgraçatradução de José Remelhe, revisão de Ana Maria Chaves para Publicações Dom Quixote, 2000)
       
   

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2008/08/11/Lara.Byron.aspx]