quinta-feira, 24 de maio de 2007

SEDUÇÃO E DRAMA NOS CANTARES DE AMIGO

             
Uma antiga e longa tradição oral de cantigas ao som das quais se dançava existiu antes da compilação de poesias nos cancioneiros trovadorescos (compilação realizada no final do reinado de D. Afonso III, época do manuscrito do Cancioneiro da Ajuda). António José Saraiva é de opinião que, pelas suas características rítmicas e pelo ambiente social que evocam, algumas cantigas remontam certamente a um antiquíssimo passado, anterior à fundação do reino.

                     





          
                   
Ao lermos as cantigas de amigo, género lírico da tradição medieval galego-portuguesa, fitamos um difuso simbolismo esotérico feito de uma coincidência entre sentimento e ambiente, como por exemplo: “Amor = natureza alegremente faladora (Primavera) / indiferença = natureza tristemente silenciosa (Inverno)” (cf. Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, Giulia Lanciani).
                  
Algumas destas cantigas têm a forma de diálogo de uma rapariga enamorada com a mãe, ou a irmã, ou as amigas, sempre acerca do “amigo” ou com este mesmo. Outras são monólogos de uma mulher enamorada. O lirismo vazado nestas composições tanto versa sobre o amor não correspondido, causa de sofrimento, desconforto e lamento, como também pode ser manifestação de um amor espontâneo e promissor. Assim, são diversos os sentimentos e reacções psicológicas da donzela: o amor tranquilo e alegre; o fervor da paixão; a ansiedade e angústia porque o amigo não dá notícias; as saudades e a tristeza pela ausência do amado; os ciúmes ou as promessas de vingança pela infidelidade do amigo…
                    
Não é por acaso que Amália Rodrigues utilizou a letra da cantiga “Sedia-m’eu na ermida de Sam Simiom” num fado. Neste cantar de amigo, a donzela, na ermida de S. Simão (ilhéu da ria de Vigo), espera o amigo embarcado. Desesperada, vê a maré encher, crescendo a sua angústia ao pensar que vai morrer sem encontrar o amigo. Segundo a interpretação deR. Menéndez Pidal, “a angústia da solidão cresce, como a maré tormentosa cresce, sem trazer barca nem marinheiro, para sair das ondas da dor (in Estudios Literarios, Madrid, 1943).
                              
                         



          
Sedia-m’eu na ermida de Sam Simiom
e cercarom-mi as ondas, que grandes som:
eu atendend’o meu amigo,
eu atendend’o meu amigo!
          
Estando na ermida ant’o altar,
cercarom-mi as ondas grandes do mar:
eu atendend’o meu amigo,
eu atendend’o meu amigo!
          
E cercarom-mi as ondas, que grandes som,
nom ei i barqueiro nem remador:
eu atendend’o meu amigo,
eu atendend’o meu amigo!
             
E cercarom-mi as ondas do alto mar,
nom ei i barqueiro, nem sei remar:
eu atendend’o meu amigo,
eu atendend’o meu amigo!
               
Nom ei i barqueiro nem remador
morrerei eu fremosa no mar maior:
eu atendend’o meu amigo,
eu atendend’o meu amigo!
               
Nom ei i barqueiro, nem sei remar,
morrerei eu fremosa no alto mar:
eu atendend’o meu amigo,
eu atendend’o meu amigo!
                
Meendinho (CBN 852/CV 438)
                      


                
Ao lermos a cantiga de amigo que se segue, Levou-s’a louçana, levou-s’a velida”, de Pero Meogo, verificamos que existe uma linguagem metafórica semelhante à do Cântico dos Cânticos. Apesar de serem textos de proveniências diferentes, tanto no espaço como no tempo, há uma persistência nos símbolos “fonte” e “cervo”:
                
                

             
Levou-s’a louçana, levou-s’a velida:
vai lavar cabelos, na fontana fria.
Leda dos amores, dos amores leda.
                
levou-s’a velida, Levou-s’a louçana:
vai lavar cabelos, na fria fontana.
Leda dos amores, dos amores leda.
                
Vai lavar cabelos, na fontana fria:
passou seu amigo, que lhi bem queria.
Leda dos amores, dos amores leda.
                
Vai lavar cabelos, na fria fontana:
passa seu amigo, que a muit’amava.
Leda dos amores, dos amores leda.
                
Passa seu amigo, que lhi bem queria:
o cervo do monte a augua volvia.
Leda dos amores, dos amores leda.
                
Passa seu amigo, que a muit’amava:
o cervo do monte volvia a augua.
Leda dos amores, dos amores leda
                
Pero Meogo, CBN 1188/ CV 793
          

  Marc Chagall, "Les amoureux de Vence"       

           
                
Nesta cantiga, o verso “o cervo do monte volvia a água” equivale a: “passou seu amigo” que a deixa perturbada na límpida sensualidade. Por outras palavras: o cervo ao volver a água turva-a  simbolicamente, é o amigo que ao passar e ao demorar-se (a conversar?)deixa perturbada até ao fundo a límpida sensualidade inexperiente da amiga.
                
                
Atentem noutra cantiga de Pero Meogo, que parece ter a ideia fixa dos cervos:
                
                

                      
Fostes, filha, eno bailar
E rompestes i o brial.
Poil’o cervo i vem
Esta fonte seguide-a bem
Poi-lo cervo i vem
              
                
Nesta cantiga a mãe queixa-se de que o brial da filha tenha sido rompido. Pelo cervo? O brial é uma peça de roupa e a cantiga tem certamente conotações eróticas (cf. Poesia e drama, António José Saraiva).
                
Na cantiga de amigo seguinte, o ambiente é rural e florido, convidativo ao amor e à alegria exteriorizada pelo e no baile. 
                
                



           
     
Bailemos nós já todas três, ai amigas,
so aquestas avelaneiras frolidas
e quem for velida como nós, velidas
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.
                
Bailemos nós já todas tres, ai irmanas,
So aqueste ramo destas avelanas,
E quem for louçana como nós, louçanas,
se amigo amar,
so aqueste ramo destas avelanas
verrá bailar.
                
Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
So aquesto ramo frolido bailemos,
E quem bem parecer, como nós parecemos,
se amigo amar,
so aquesto ramo so’l que nós bailemos
verrá bailar.
                
Airas Nunes, clérigo (CV 462/ CBN 879)
                   
v. 2 – “so aquestas avelaneiras frolidas” = sob estas aveleiras floridas
v. 6 – “verrá” = virá
v. 9 – “louçana” = formosa, louçã
v. 11 – “mentr’al non fazemos” = enquanto outra coisa não fazemos
v. 15 – “so’l que” = sob o que; sob o qual
                          



               
A “bailada das avelaneiras” é uma reminiscência das danças rituais femininas debaixo das árvores de avelãs, onde se suponha que a deusa da fecundidade aí se escondia.
                
Assim, a dança frente os amigos é associada a um ritual de pujança, de alegria e de fecundidade, sendo, por isso, conotada com a sedução amorosa e com o próprio namoro.
                
Nos cantares de amigo é comum o elogio do amor e do corpo da própria figura feminina. A palavra “velida”, que significava “bonita”, é usada frequentemente, o que supõe um grau de confiança da protagonista no seu encanto físico (e no das amigas que a acompanham). Esse estado de espírito propaga-se à expressão do sentimento do amor.

                
            
         

       
Os SÍMBOLOS são uma constante na poesia trovadoresca, por isso deixo aqui uma síntese dos que ocorrem com mais frequência nas cantigas de amigo:
                
  • fonte é origem da vida, da maternidade e da graça; as suas águas límpidas podem indicar também a pureza da donzela;
             
  • igualmente a alva é símbolo da inocência, da pureza e da virgindade;
               
  • os cervos simbolizam a fecundidade, do ritmo do crescimento ou da virilidade (do amigo) e do ardor amoroso; no entanto, quando os cervos turvam a água, pretende-se simbolizar a confusão e o aturdimento de espírito que os encontros amorosos provocam;
            
  • as flores podem remeter-nos para a delicadeza e feminilidade;
              
  • as ondas traduzem o tumulto interior;
            
  • as aves, com a beleza do seu canto, representam a sedução e o enamoramento que podem ressurgir em qualquer momento;
            
  • vento também pode relacionar-se com as inquietações ou representar a fecundidade...
           
  • luz traduz o deslumbramento do amor e, tal como a luz nos pode cegar, também o amor nos pode impedir de ver as situações com clarividência e com sensatez;
           
  • noite (longa, escura, silenciosa e misteriosa) representa as incertezas do amor...
                
(cf. Dimensão LiteráriaV. Moreira e H. Pimenta, Porto Ed., 1997)




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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/05/24/cantiga.de.amigo.aspx]

domingo, 13 de maio de 2007

CÂNTICO DOS CÂNTICOS, ARTE DE AMAR & EROTISMO




      
Canticum Canticorum ou Canticum Salomonis é um texto poético de linguagem fortemente figurativa e sugestiva, cuja acção se situa em Jerusalém ou nos seus arredores, em plena Primavera. Provavelmente, o Cântico dos Cânticos (ou Cantares de Salomão como também é conhecido o texto) é proveniente de poemas nupciais cujo ritual durava sete dias.
                 
As interpretações medievais do conteúdo literário do Cântico dos Cânticos, tanto as talmúdicas (judaicas) como as dos cristãos, remetem para uma interpretação alegórica que se afasta do erotismo que o poema evoca.
                
Assim, as duas leituras mais usuais do Cântico dos Cânticos interpretam-no:
                
·         como metáfora do relacionamento do povo hebreu com o seu Deus, através da união de dois amantes numa relação livre e desprovida de culpa;
                
·         como descrição de um quadro que remete para uma relação sensual do amor entre dois jovens amantes.
                
  
  
                                                                                                            
                
                
Ela:
          
A voz de meu amado! Ei-lo que chega,
correndo pelos montes,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um gamo
ou a um filhote de gazela.
Ei-lo que espera,
por detrás do nosso muro,
olhando pelas janelas,
espreitando pelas frinchas.
Fala o meu amado e diz-me:
Cântico 2, 8-10
            
Ele:
              
Os teus lábios destilam doçura, ó minha noiva;
há mel e leite sob a tua língua,
e o aroma dos teus vestidos
é como o aroma do Líbano.
És um jardim fechado, minha irmã e minha esposa,
um jardim fechado, uma fonte selada.
Os teus rebentos são um pomar de romãzeiras
com frutos deliciosos,
com alfenas e nardos,
nardo e açafrão,
cálamo e canela,
com toda a espécie de árvores de incenso,
mirra e aloés,
com todos os bálsamos escolhidos.
Cântico 4, 11-14
            
Ela:
           
Levanta-te, vento norte;
vem, vento do sul;
vem soprar no meu jardim.
Que se espalhem os seus perfumes.
O meu amado entrará no seu jardim
e comerá os seus frutos deliciosos.
Cântico 4, 16
          
O meu amado desceu ao seu jardim,
ao canteiro dos aromas,
para apascentar nos jardins
e para colher os lírios.
Eu sou para o meu amado e o meu amado é para mim,
ele é o pastor entre os lírios.
Cântico 6, 2-3
             
Bíblia sagrada. Para o terceiro milénio da encarnação. Versão dos textos originais.Difusora Bíblica / Franciscanos Capuchinhos 4ª ed. revista sob a direcção de Herculano Alves, 2003
             
         
                                    
         
       
Meinrad CraigheadCântico dos Cânticos  (1966)
                
                       
          
Cântico dos Cânticos tal como a Arte de Amar (Ars Amatoria) de Ovídio foram, em tempos idos, os livros de mesa-de-cabeceira de damas e cavalheiros...
                
Arte de Amar, obra de conteúdo arejado, foi particularmente apreciada na Antiguidade. No período medieval a sua leitura foi feita sobretudo às escondidas, sendo de novo valorizada a partir do Renascimento.
               
“Compósita mistura de Bíblia profana, de Manual de Bordo e de Livro de Cozinha para uso dos aprendizes do amor, a Arte de Amar tem vivido clandestinamente sob o alçado de escrivaninhas devotas, ocupado os mais secretos lugares no topo das estantes mais veneráveis, transitado de mão em mão sob a capa de sucessivas gerações de estudantes, pernoitado em celas de conventos e em celas de prisões, em castelos, em palácios e em estalagens, em boudoirs de cocottes e em tendas de campanha, em bordéis, em solares, em escolas, em beliches de transatlântico e em compartimentos de caminho de ferro...” – éDavid Mourão-Ferreira quem o assegura no prefácio a uma versão que procura obedecer mais a certos ritmos internos do que a uma opressiva literalidade. Em 1969, numa ardência de época, ele e Natália Correia ofereciam-nos esta tradução:
          
                

                
              
Tal como o povo, tal como o juiz
e o selecto senado se rendem à eloquência,
à arte embaladora das palavras
as mulheres não opõem resistência.
Mas os recursos oculta do teu verbo;
evite o teu discurso o tom pedante.
Só um pobre de espírito faria
um pomposo discurso à sua amante.
Muitas vezes foi uma carta causadora
de se tornar odioso o seu autor.
Que o teu estilo seja natural
e as palavras comuns, embora ternas.
À mulher que escreveres procura dar
naturalmente a impressão
de que te está a ouvir falar.
             
Despoja-te do orgulho
se queres ser amado longo tempo.
                
O amor ainda jovem é inseguro,
o uso o fortifica e o tempo o torna firme
se o amante o souber alimentar. […]
Que a tua bela se habitue a ti! […]
Que a tua amiga te veja e ouça sempre.
Que a noite e o dia lhe mostrem o teu rosto.
               
Ovídio e Corina, por Agostino Carracci, séc XVI
                 
É no leito, acredita,
que a Concórdia, sem armas, eternamente habita.
A cama é o lugar onde nasce o perdão.
As pombas que ainda há pouco se batiam
unem os bicos e o seu arrolhar
é o amor a falar.
                
Nasce o prazer naturalmente e não
duma artificial provocação.
Para que jorre a fonte do prazer
é necessário que o homem e a mulher
igualmente o partilhem.
Odeio o coito quando não é mútua
a desvairada entrega dos amantes.
             
Apressar o termo da volúpia,
acredita, não é conveniente,
mas depois de atrasos que a demorem
chegar à meta insensivelmente.
E antes de encontrares aquela região
onde as carícias têm melhor acolhimento
não te impeça o pudor de a afagar.
Como os raios do sol quando são reflectidos
no espelho da água transparente,
nos olhos da amante, esse trémulo brilho
tu verás cintilar.
Depois virão as queixas, os gemidos,
doces rumores, um murmúrio terno,
as palavras que convêm ao amor.
Mas as velas não abras mais do que a tua amiga
não a deixes para trás e que ela se antecipe
à tua marcha também não lhe concedas.
Que a meta seja atingida ao mesmo tempo.
São guindados ao cume da volúpia
o homem e a mulher quando vencidos
ficam na cama, sem forças, estendidos.
Se o vagar deixa toda a liberdade
e o medo não obriga a apressar o acto,
eis a conduta que convém seguir.
Mas se houver perigo no tardar,
a toda a força mete os remos
e dá de esporas ao cavalo
lançado a toda a brida.
               
Arte de Amar, Ovídio (43 a.C-17 d.C.)
tradução de Natália Correia e David Mourão-Ferreira, 1969
                
Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/05/13/cantico.aspx



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A Arte de Amar e os livros num poema de Afonso X, o Sábio: “Ao daiam de Cález eu achei” (“Ao deão de Cadiz eu achei”), por Carlos Mendonça Lopes (pseudónimo), viciodapoesia.com, 2016-04-15.


  "História do Cântico dos Cânticos em Portugal", Arnaldo Pinto Cardoso. Didaskalia XXII, 1992.